• ❝Eu prefiro estar aqui❞
  • — Então moreno, já decidiu aonde vai ir nas férias do final de ano? — perguntei a ele. Estávamos sentados no sofá da casa dele, assistindo TV e comendo pipoca.
  • — Ainda não sei. Ano passado foi Caribe, acho que esse ano vou para Dubai. — respondeu.
  • — Só para quem pode! — exclamei deitando minha cabeça no ombro dele.
  • — Mas já faz quase sete anos que a gente se conhece e a senhorita nunca quis ir viajar comigo. — reclamou.
  • — Pois é. Mas vai ver que durante esse tempo eu estava quase me matando de tanto estudar para ter o emprego que eu tenho agora.
  • — Eu não precisei me matar estudando e minha profissão é bem melhor que sua.
  • — Coisa convencida.
  • — Mas é verdade. — ele riu animadamente. — Sabe que eu ainda me lembro do dia que eu te vi pela primeira vez? Lembro que eu estava na sacada do meu quarto e assim que eu te vi pensei “Até que enfim uma vizinha gata”. — comentou me fazendo rir.
  • — Eu também me lembro desse dia. Eu estava completamente chateada por meus pais terem decidido mudar de cidade. Mas quando eu te vi, comecei a achar que São Paulo seria muito mais interessante do que eu imaginava.
  • — Foi tipo coisa de filme, né? Muita coincidência as sacadas dos nossos quartos ficarem bem de frente uma para outra.
  • — Foi mesmo. E depois que eu vi esses teus olhos negros atentos, a gente começou a conversar e sair juntos.
  • — Nós aproveitamos demais da conta aquela época. Apesar de a gente ter ficado apenas uma vez.
  • — Foi logo depois que a gente se conheceu, né? Acho que a gente tava meio bêbado aquele dia.
  • — E o mais doido em tudo isso é que você se tornou a minha melhor amiga. Tu me conhece melhor do que qualquer outra pessoa.
  • — A vida sempre costuma surpreender nos momentos que menos esperamos.
  • — Verdade, morena. E por falar nisso, teus pais estão viajando, não é?
  • — Sim senhor.
  • — Então você vai dormir aqui?
  • — Claro que não.
  • — Claro que sim. Ou você acha que eu vou deixar você dormir sozinha na tua casa?
  • — Então porque você não vai dormir lá na minha casa comigo, ao invés de eu dormir aqui? — indaguei de sobrancelhas erguidas.
  • — Porque você já está aqui, uai. — respondeu com um sorriso largo.
  • — Ok. Vou tomar um banho então, porque o sono já está batendo.
  • — Bora, que eu subo contigo.
  • E dentre todas as pessoas do mundo era nele que eu encontrava meu refúgio. Ele, sem sombra de dúvidas, era a pessoa mais importante da minha vida e apesar de ser um cara apaixonante, eu nutria por ele o mais puro sentimento de amizade. E para ser sincera, nunca imaginei trocar esse sentimento tão verdadeiro por algo mais intenso que talvez pudesse acabar me afastando dele.
  • Nós tínhamos uma intimidade que poderia superar a de qualquer casal. Eu sabia absolutamente tudo sobre a vida dele e vice e versa. Estávamos tão acostumados a estar um ao lado do outro que no closet do quarto dele, havia um espaço reservado para as roupas minhas que ficavam na casa dele, caso eu precisasse. Sem contar o fato de que já fazia muito tempo que nós não nos chamávamos pelo nome. Eu era a morena dele, e ele o meu moreno.
  • Antes mesmo de entrar no chuveiro, notei que eu havia deixado minha roupa em cima da cama. Como eu já tinha tirado a roupa me enrolei em uma toalha, e abri uma fresta da porta do banheiro.
  • — Moreno? — chamei por ele.
  • — O que foi? — ouvi a voz dele vindo do closet.
  • — Deixei minha roupa em cima da cama, trás ela para mim?
  • — Já vai, cabeça de vento. — revirei os olhos e voltei para o banheiro. Poucos segundos depois ele apareceu. — Aqui ó. — disse entregando as roupas para mim.
  • — Obrigada. — agradeci, no momento em que nossos olhos se cruzaram.
  • Tanto eu quanto ele ficamos imóveis. Algo absolutamente estranho envolveu meu corpo e senti um arrepio percorrer minhas costas. A única coisa que eu conseguia observar era a intensa negritude daquele par de olhos e instantaneamente prendi a respiração quando vi ele se aproximar. Contrapondo tudo o que eu podia imaginar, senti os lábios vorazes dele investirem contra os meus. Todo o bom senso simplesmente desapareceu e naquele instante a única coisa que eu queria era tê-lo ainda mais próximo de mim. Por isso, o que antes era praticamente inimaginável e que ia contra á todos os meus preceitos, aconteceu. Eu me entreguei a ele.
  • — A gente não deveria ter feito isso. — murmurei enquanto ele ensaboava meu corpo.
  • — E porque não?
  • — Sei lá, isso não está certo.
  • — Então é errado dois amigos sentirem desejo e atração um pelo outro?
  • — Acho que não. Mas e se isso estragar a nossa amizade? — questionei.
  • — Não vai estragar, morena. Prometo para você. — garantiu ele pressionando os lábios em meu pescoço.
  • Deitamos na cama e tentei deixar o meu medo de lado. “Ele nunca quebrou nenhuma das promessas que fez para mim” repeti centenas de vezes antes de pegar no sono, aconchegada no calor dos braços dele.
  • As semanas se passaram e felizmente ele não quebrou a promessa. Nossa amizade continuava exatamente como antes, até eu perceber que havia alguma coisa “errada” comigo. Tentei em vão, não entrar em desespero quando sai da farmácia com um teste de gravidez em mãos.
  • — Moreno, a gente precisa conversar. — fitei o chão, tentando criar coragem para contar a novidade a ele.
  • — O que aconteceu? Você parece preocupada.
  • — Acho que você também vai ficar depois de ouvir o que eu tenho para te dizer.
  • — Para com isso, morena. — pediu visivelmente apavorado. Senti meu estômago embrulhar quando a probabilidade de que ele podia reagir de forma negativa me veio em mente. — Morena?! — insistiu, frente ao meu silêncio.
  • — Eu estou grávida. — sussurrei, de olhos apertados.
  • — Como? — balbuciou ele e não pude distinguir se sua voz era de felicidade ou surpresa.
  • — Fiz o teste de farmácia hoje e deu positivo.
  • — Você não está brincando comigo, né?
  • — Tu acha que eu iria brincar com uma coisas dessas? — questionei incrédula e me surpreendi ao ver um largo sorriso se formar nos lábios dele. — A gente errou feio. — suspirei segurando minha cabeça com as mãos.
  • — Pensei que você ia colocar a culpa em mim. — ele confessou, me abraçando de lado.
  • — Eu estaria sendo injusta se fizesse isso.
  • — Mas morena, não fala que foi um erro o que a gente fez. É do nosso filho que a gente está falando.
  • — Desculpa, mas eu ainda estou confusa em relação a tudo isso.
  • — Eu entendo. Mas olha só para a gente! Nós temos 24 anos, você já terminou a faculdade faz tempo, tem um emprego que sempre foi o seu sonho e eu também tenho uma carreira de sucesso. A gente não é mais criança e pode tranquilamente dar um jeito nisso. — argumentou acariciando meu cabelo. Fiquei quieta por alguns instantes e por fim sorri.
  • — Moreno?
  • — Hum.
  • — Você ainda é uma criança. — afirmei.
  • — Boba. — disse ele fazendo cócegas em mim.
  • — Mas é sério. — falei assim que ele parou. — Eu estou com medo.
  • — Medo do que?
  • — Sei lá, é tanta responsabilidade... Tenho medo que alguma coisa dê errado e eu acabe ficando sozinha.
  • — Para com isso. É uma baita responsabilidade sim, mas a gente vai assumir ela juntos. E nada vai dar errado. Eu vou estar do seu lado em todos os momentos, agora mais do que nunca. Não vou te abandonar por nada nesse mundo, entendeu?
  • — Entendi. Mas se antes era difícil de te aturar imagina agora que você não vai me largar mais. — brinquei.
  • — Agora tu imagina a minha situação que vou ter que te aguentar ainda mais chorona, mais estressada e mais dramática. — ele riu.
  • — Que mentira! — exclamei sorrindo. — Mas tem uma outra coisa que me preocupa.
  • — O quê?
  • — Meu pai.
  • — Putz, ele nunca foi com a minha cara.
  • — Aham. O que minha mãe tem a favor de você, ele tem contra.
  • — Ele vai querer me matar quando descobrir.
  • — Não sei se ele vai querer ver meu filho sem pai. — argumentei, arrancando mais um sorriso dele.
  • — É. Olhando por esse lado talvez ele me deixe viver.
  • — Depois eu quem sou a dramática da história. — revirei os olhos, achando graça do jeito dele.
  • — A gente precisa resolver isso logo.
  • — Eu sei, mas acho melhor fazer o exame de sangue antes para garantir.
  • — Tudo bem. Vamos marcar uma consulta para o quanto antes e de preferência em um dia que eu possa ir junto contigo.
  • E foi isso que nós fizemos. Depois de confirmar a gravidez, marcamos um dia para contar a novidade aos meus pais. Eu estava nervosa, minhas mãos suavam e mal consiga manter minha respiração constante. Quando a campainha tocou, meu coração ameaçou sair pela boca. Corri para abrir a porta e assim que vi aquele sorriso tão familiar, senti uma onda de alivio me invadir.
  • — Vai dar tudo certo, morena. — ele sussurrou em meu ouvido enquanto me abraçava.
  • Seguimos de mãos entrelaçadas até a sala, onde meus pais estavam nos esperando. Sentemos um ao lado do outro e ele segurou ainda mais firme minha mão, passando-me confiança.
  • — Então? O que foi que vocês fizeram? — meu pai perguntou.
  • — Um filho. — murmurei, com receio.
  • — Você está grávida? — minha mãe questionou sem esconder a surpresa.
  • — Sim. — respondi com um suspiro.
  • — Sabe que até demorou demais para isso acontecer. — meu pai disse, sem demonstrar qualquer espanto.
  • — Pai! — o repreendi de olhos arregalados.
  • — Eu sempre respeitei muito a sua filha. — enfim, ele se pronunciou. — Ela sempre foi a pessoa que mais me apoiou desde que a gente se conheceu. Eu gosto demais dela e a gente vai criar esse filho juntos.
  • — Eu fico feliz em saber que você assume as consequências dos seus atos. Eu não esperava. — meu pai comentou.
  • Confesso que fiquei encantada com a forma protetora que aquele par de olhos negros recaiam sobre mim durante a conversa com meus pais. Ele sempre se sobressaia em relação aos outros homens, porque além de beleza, ele possuía caráter. E eu sabia que a vida havia sido generosa comigo por permitir que eu convivesse com alguém tão especial como ele.
  • — Eu não disse que ia dar tudo certo? — ele indagou assim que ficamos sozinhos na sala.
  • — Estou me sentindo muito mais aliviada agora. — confessei. — Obrigada por ter vindo falar com eles.
  • — Não precisa agradecer. Era o mínimo que eu podia fazer, afinal você está fazendo de mim o cara mais completo do mundo.
  • — Estou? — perguntei impressionada.
  • — Está. — confirmou sorrindo. — Você sabe que eu sempre fui louco para ter um filho. E saber que ele vai ter uma mãe tão perfeita como você, me deixa ainda mais feliz.
  • — Você não existe, moreno. — falei agarrando-o pelo pescoço e o abraçando. Foi só naquele momento que eu pude notar o quanto eu gostava do perfume dele.
  • E foi a partir dali, que comecei a observar que sempre quando estávamos juntos, ele dava um jeito de deixar pelo menos uma das mãos sobre minha barriga, como se estivesse cuidando e protegendo nosso filho.
  • Até que o dia da primeira ultrassom chegou. Como ele tinha um compromisso antes, combinamos de nos esperar na clínica. Os minutos iam se passando e nada dele chegar. Eu já estava me convencendo de que ele não viria mais, principalmente quando ouvi minha médica chamar meu nome. Levantei e comecei andar em direção a sala quando ouvir o som de uma porta se abrindo. Me virei, e vi ele.
  • — Espera que eu preciso entrar junto. — disse apoiando as mãos no joelho, para recuperar o fôlego. — abri um sorriso largo e fui até ele para abraçá-lo. Naquele dia, tive certeza de que ele nunca iria me abandonar.
  • — Vocês formam um belo casal. — minha médica comentou assim que entramos na sala. — Tenho certeza que esse bebê será muito amado.
  • — Também tenho. — ele concordou segurando firme minha mão e abrindo um belo sorriso para mim.
  • Tudo estava dando certo, até eu descobrir que minha gravidez era de risco. Não consegui evitar que o medo me invadisse, mas tentei ao máximo que pude escondê-lo.
  • — Acho que todo mundo pensa que somos um casal. — falei assim que saímos da clínica, ainda de mãos entrelaçadas.
  • — É bom que achem mesmo. Ou você pensa que eu vou deixar a mãe do meu filho ficar de enrosco com outro homem?
  • — Ah é? Então você esteja ciente que eu também não vou deixar o pai do meu filho ficar de enrosco com outra mulher, ok?
  • — Ok! — ele riu, deixando o ar mais descontraído.
  • — Você ouviu o que a médica disse? — questionei depois de alguns segundos de silêncio.
  • — Sim. — sussurrou, como se não quisesse acreditar. — Mas eu vou cuidar de você, morena. Nosso filho vai nascer saudável e a gente vai ser muito feliz com ele.
  • Eu realmente acreditava que nós seriamos, principalmente depois dos quatro primeiros meses de gravidez terem passado. Até que um dia senti fortes contrações e entrei em desespero. Eu sabia que ele devia estar trabalhando e por isso chamei meu pai. Corremos para o hospital, mas já era tarde demais. Eu havia perdido meu bebê.
  • Já havia anoitecido. Eu estava em choque. Deitada na cama do hospital, eu já não possuía forças nem para chorar. Eu sabia que a qualquer momento meu moreno ia chegar, e eu não sabia se teria coragem para encará-lo.
  • Finalmente, ele apareceu. Sentei na cama e vi aqueles olhos encontrarem os meus. As lágrimas voltaram a cair e ele correu até mim, me abraçando.
  • — Desculpa. — gaguejei depois de incontáveis minutos. — Eu perdi nosso filho.
  • — Ei, não precisa se desculpar. A culpa não foi sua. — disse apertando-me em seus braços.
  • — Eu estraguei tudo. Acabei com sua felicidade. — solucei.
  • — Para com isso. Eu já disse que você não tem culpa de nada. Eu estava muito feliz mesmo por que ia ter um filho contigo, mas ainda não era a hora. Infelizmente a gente não pode ter tudo o quer. Mas eu ainda tenho você. E isso me basta. Sem contar que somos novos, e teremos tempo suficiente para tentar ter um filho.
  • — Então você não vai se afastar de mim?
  • — Claro que não. Eu prometi que estaria sempre contigo. Só não entendo porque todo esse medo de que eu me afaste.
  • — Porque se eu perder você, perco tudo. Você é o que eu tenho de melhor. Eu preciso de você. — sussurrei em meio ao choro.
  • — Eu sempre vou estar aqui! — afirmou, convicto.
  • Ele passou a noite comigo no hospital. E apesar de não demonstrar, eu podia sentir o quão abatido ele estava. Meu coração se desmanchou aos poucos tanto pela perda, como por estar fazendo ele sofrer. Ele vinha cuidando de mim, e eu tinha certeza que naquele momento era eu quem precisava cuidar dele. Nós estávamos juntos naquele barco e nenhum de nós estava disposto a abandoná-lo.
  • — Você vai poder ir para casa hoje. — ele falou assim que eu acordei no dia seguinte.
  • — Ainda bem. Não quero mais ficar aqui.
  • — E eu já falei com teus pais. Você vai ficar na minha casa.
  • — Claro que não.
  • — Claro que sim.
  • — Você precisa trabalhar. — argumentei.
  • — Minhas férias começam hoje.
  • — Então é justamente por isso que eu vou para a minha casa.
  • — Sem teimosias. Já está decidido, morena.
  • Então, mesmo depois de teimar mais um pouco, acabei cedendo e indo para a casa dele. Ele queria cuidar de mim, e eu não tinha dúvidas que queria ficar ao lado dele naquele momento. Passamos o dia juntos. Ele tentando me animar, e eu tentando forçar o riso, para não magoá-lo ainda mais. A noite chegou e eu precisei de um calmante para dormir. No entanto, despertei no meio da madrugada e notei que ele não estava ao meu lado na cama. Me levantei, e fui atrás dele. O encontrei sentado no sofá, segurando a cabeça entre as mãos e chorando. Naquele instante, deixei toda minha dor de lado para tentar amenizar a dele.
  • — Vai ficar tudo bem. — sussurrei enquanto me aconchegava no colo dele.
  • — Eu quebrei minha promessa. Falei que nosso filho ia nascer saudável e que nós seriamos felizes.
  • — Moreno, você não quebrou promessa alguma. Foi a vida que decidiu mudar o desfecho da nossa história. Você não pode pensar assim. Ninguém tem culpa do que aconteceu. — tentei convencê-lo.
  • — Eu sinto muito. — ele murmurou triste.
  • — Eu também.
  • E sabendo que nenhuma outra palavra adiantaria, acabei encostando meus lábios nos dele, beijando-o com todo o carinho que eu conseguia fornecer. Pude sentir um fantasma de um sorriso se formar em sua expressão e me afastei calmamente.
  • — Agora vem que você precisa descansar. — ele se levantou, me pegou no colo e me levou novamente para o quarto.
  • Assim a semana se passou. Não medi esforços para arrancar sorrisos dele e ele fez o mesmo. Volte e meia eu me pegava pensando no beijo daquela noite, mas tentava ao máximo não pensar naquilo. Ele era apenas meu amigo — ou pelo menos eu pensava que era.
  • — Acho que vou me aventurar a atravessar a rua e voltar para a minha casa. — comentei. Era domingo cedo e nós nem tínhamos levantado da cama.
  • — Posso saber por quê? — indagou ele, afagando meus cabelos.
  • — Porque você deveria estar agora em Dubai, e não perdendo seu tempo comigo.
  • — Quem disse que estou perdendo meu tempo com você? — perguntou de sobrancelhas erguidas.
  • — Eu estou dizendo.
  • — Então eu estou dizendo, que eu realmente poderia estar agora em um hotel em Dubai, mas eu prefiro estar aqui te perturbando. E ouvindo essa sua voz de sono em pleno domingo de manhã.
  • — Moreno, você está me saindo melhor do que a encomenda. — dei um sorriso bobo.
  • — Falando nisso. Você lembra quando começou me chamar de moreno?
  • — Lembro sim. Eu tinha acabado de quebrar a cara com um idiota. — fiz uma careta, recordando-me daquele dia.
  • — Tu disse que um dia ainda ia encontrar um cara safa que ia ser só teu e te chamar de morena.
  • — E você disse que enquanto eu não achasse, tu ia me chamar de morena, porque safado tu já era de monte, né? — falei rindo.
  • — Boba. — ele sorriu, mas logo voltou a ficar sério. — Morena, eu estou apaixonado.
  • Fiquei paralisada frente a revelação dele. Surpreendendo a mim mesma, senti o pavor tomar conta do meu corpo. Aquilo não podia estar acontecendo. Eu não podia perdê-lo. Pelo menos não agora, porque eu não estava preparada para isso.
  • — Apaixonado? — balbuciei me levantando da cama.
  • — Sim. — confirmou e eu comecei andar desesperadamente de um lado para outro.
  • — Você deveria ter me contado antes. — falei apressadamente, observando ele se levantar também. — Eu beijei você outro dia! — exclamei, no momento em que ele me abraçou por trás. Notei então que eu gostava de sentir aquele corpo próximo ao meu. Gostava do calor que emanava. Do cheiro. Gostava de quem eu me tornava ao lado dele. E estava cada vez mais difícil para eu esconder que estava apaixonada.
  • — Depois você ainda tem a capacidade de dizer que não é dramática. — ele sussurrou em meu ouvido.
  • — Não é drama. — afirmei virando-me para ele e encontrando um olhar extremamente quente, que acendeu meu corpo para algo que eu já não conseguia mais evitar. — Mas isso está errado.
  • — Da última vez que nós fizemos algo que você achava errado, acabamos nos aproximando ainda mais.
  • — Mas agora é diferente. — murmurei. — E eu só tenho uma coisa para dizer. Ai dessa mulher que você está apaixonado se ela não cuidar direitinho de você e não te fazer feliz.
  • — Você já cuida direitinho de mim, morena. E me faz feliz como ninguém. — ele sorriu.
  • — Espera aí. Você está me dizendo que... — e em resposta de uma pergunta que eu ainda não havia feito, senti os lábios dele tocarem com delicadeza os meus.
  • — Eu estou tentando dizer... — começou ele quando nossas bocas se separaram. — Que eu só conhecia o seu lado forte, decidido... Mas nesses últimos meses eu me deparei com uma mulher totalmente diferente. Cheia de inseguranças e que tem medo de ficar sozinha. Logo você, morena. Que poderia ter qualquer cara que fosse aos teus pés. Então eu comecei a perceber que eu queria cuidar de você. Que eu não seria capaz de te deixar nunca, porque o que eu sentia por ti era muito mais forte do que amizade. Eu estou perdidamente apaixonado por você, morena. — confessou secando as lágrimas que se acumulavam em meus olhos.
  • — Que bom. Porque eu também estou perdidamente apaixonada por você, moreno. — ele abriu um daqueles sorrisos de tirar o fôlego e me beijou novamente.
  • E eu não podia mais negar que ele havia plantado uma pequena semente em meu coração. E com o decorrer do tempo, foi cultivando-a, a ponto dessa modesta semente crescer e se enraizar em meu peito, para sempre.
  • Inspirado na música: Domingo de Manhã - Marcos E Belutti

Ficou comprovado que 95% das cosquinhas terminam em beijo. Eu faço parte dos 5% que terminam dando murro, e mandando ir se fuder.


Luan Rafael, nosso anjo de asas coloridas
  • ❝Eu prefiro estar aqui❞
  • — Então moreno, já decidiu aonde vai ir nas férias do final de ano? — perguntei a ele. Estávamos sentados no sofá da casa dele, assistindo TV e comendo pipoca.
  • — Ainda não sei. Ano passado foi Caribe, acho que esse ano vou para Dubai. — respondeu.
  • — Só para quem pode! — exclamei deitando minha cabeça no ombro dele.
  • — Mas já faz quase sete anos que a gente se conhece e a senhorita nunca quis ir viajar comigo. — reclamou.
  • — Pois é. Mas vai ver que durante esse tempo eu estava quase me matando de tanto estudar para ter o emprego que eu tenho agora.
  • — Eu não precisei me matar estudando e minha profissão é bem melhor que sua.
  • — Coisa convencida.
  • — Mas é verdade. — ele riu animadamente. — Sabe que eu ainda me lembro do dia que eu te vi pela primeira vez? Lembro que eu estava na sacada do meu quarto e assim que eu te vi pensei “Até que enfim uma vizinha gata”. — comentou me fazendo rir.
  • — Eu também me lembro desse dia. Eu estava completamente chateada por meus pais terem decidido mudar de cidade. Mas quando eu te vi, comecei a achar que São Paulo seria muito mais interessante do que eu imaginava.
  • — Foi tipo coisa de filme, né? Muita coincidência as sacadas dos nossos quartos ficarem bem de frente uma para outra.
  • — Foi mesmo. E depois que eu vi esses teus olhos negros atentos, a gente começou a conversar e sair juntos.
  • — Nós aproveitamos demais da conta aquela época. Apesar de a gente ter ficado apenas uma vez.
  • — Foi logo depois que a gente se conheceu, né? Acho que a gente tava meio bêbado aquele dia.
  • — E o mais doido em tudo isso é que você se tornou a minha melhor amiga. Tu me conhece melhor do que qualquer outra pessoa.
  • — A vida sempre costuma surpreender nos momentos que menos esperamos.
  • — Verdade, morena. E por falar nisso, teus pais estão viajando, não é?
  • — Sim senhor.
  • — Então você vai dormir aqui?
  • — Claro que não.
  • — Claro que sim. Ou você acha que eu vou deixar você dormir sozinha na tua casa?
  • — Então porque você não vai dormir lá na minha casa comigo, ao invés de eu dormir aqui? — indaguei de sobrancelhas erguidas.
  • — Porque você já está aqui, uai. — respondeu com um sorriso largo.
  • — Ok. Vou tomar um banho então, porque o sono já está batendo.
  • — Bora, que eu subo contigo.
  • E dentre todas as pessoas do mundo era nele que eu encontrava meu refúgio. Ele, sem sombra de dúvidas, era a pessoa mais importante da minha vida e apesar de ser um cara apaixonante, eu nutria por ele o mais puro sentimento de amizade. E para ser sincera, nunca imaginei trocar esse sentimento tão verdadeiro por algo mais intenso que talvez pudesse acabar me afastando dele.
  • Nós tínhamos uma intimidade que poderia superar a de qualquer casal. Eu sabia absolutamente tudo sobre a vida dele e vice e versa. Estávamos tão acostumados a estar um ao lado do outro que no closet do quarto dele, havia um espaço reservado para as roupas minhas que ficavam na casa dele, caso eu precisasse. Sem contar o fato de que já fazia muito tempo que nós não nos chamávamos pelo nome. Eu era a morena dele, e ele o meu moreno.
  • Antes mesmo de entrar no chuveiro, notei que eu havia deixado minha roupa em cima da cama. Como eu já tinha tirado a roupa me enrolei em uma toalha, e abri uma fresta da porta do banheiro.
  • — Moreno? — chamei por ele.
  • — O que foi? — ouvi a voz dele vindo do closet.
  • — Deixei minha roupa em cima da cama, trás ela para mim?
  • — Já vai, cabeça de vento. — revirei os olhos e voltei para o banheiro. Poucos segundos depois ele apareceu. — Aqui ó. — disse entregando as roupas para mim.
  • — Obrigada. — agradeci, no momento em que nossos olhos se cruzaram.
  • Tanto eu quanto ele ficamos imóveis. Algo absolutamente estranho envolveu meu corpo e senti um arrepio percorrer minhas costas. A única coisa que eu conseguia observar era a intensa negritude daquele par de olhos e instantaneamente prendi a respiração quando vi ele se aproximar. Contrapondo tudo o que eu podia imaginar, senti os lábios vorazes dele investirem contra os meus. Todo o bom senso simplesmente desapareceu e naquele instante a única coisa que eu queria era tê-lo ainda mais próximo de mim. Por isso, o que antes era praticamente inimaginável e que ia contra á todos os meus preceitos, aconteceu. Eu me entreguei a ele.
  • — A gente não deveria ter feito isso. — murmurei enquanto ele ensaboava meu corpo.
  • — E porque não?
  • — Sei lá, isso não está certo.
  • — Então é errado dois amigos sentirem desejo e atração um pelo outro?
  • — Acho que não. Mas e se isso estragar a nossa amizade? — questionei.
  • — Não vai estragar, morena. Prometo para você. — garantiu ele pressionando os lábios em meu pescoço.
  • Deitamos na cama e tentei deixar o meu medo de lado. “Ele nunca quebrou nenhuma das promessas que fez para mim” repeti centenas de vezes antes de pegar no sono, aconchegada no calor dos braços dele.
  • As semanas se passaram e felizmente ele não quebrou a promessa. Nossa amizade continuava exatamente como antes, até eu perceber que havia alguma coisa “errada” comigo. Tentei em vão, não entrar em desespero quando sai da farmácia com um teste de gravidez em mãos.
  • — Moreno, a gente precisa conversar. — fitei o chão, tentando criar coragem para contar a novidade a ele.
  • — O que aconteceu? Você parece preocupada.
  • — Acho que você também vai ficar depois de ouvir o que eu tenho para te dizer.
  • — Para com isso, morena. — pediu visivelmente apavorado. Senti meu estômago embrulhar quando a probabilidade de que ele podia reagir de forma negativa me veio em mente. — Morena?! — insistiu, frente ao meu silêncio.
  • — Eu estou grávida. — sussurrei, de olhos apertados.
  • — Como? — balbuciou ele e não pude distinguir se sua voz era de felicidade ou surpresa.
  • — Fiz o teste de farmácia hoje e deu positivo.
  • — Você não está brincando comigo, né?
  • — Tu acha que eu iria brincar com uma coisas dessas? — questionei incrédula e me surpreendi ao ver um largo sorriso se formar nos lábios dele. — A gente errou feio. — suspirei segurando minha cabeça com as mãos.
  • — Pensei que você ia colocar a culpa em mim. — ele confessou, me abraçando de lado.
  • — Eu estaria sendo injusta se fizesse isso.
  • — Mas morena, não fala que foi um erro o que a gente fez. É do nosso filho que a gente está falando.
  • — Desculpa, mas eu ainda estou confusa em relação a tudo isso.
  • — Eu entendo. Mas olha só para a gente! Nós temos 24 anos, você já terminou a faculdade faz tempo, tem um emprego que sempre foi o seu sonho e eu também tenho uma carreira de sucesso. A gente não é mais criança e pode tranquilamente dar um jeito nisso. — argumentou acariciando meu cabelo. Fiquei quieta por alguns instantes e por fim sorri.
  • — Moreno?
  • — Hum.
  • — Você ainda é uma criança. — afirmei.
  • — Boba. — disse ele fazendo cócegas em mim.
  • — Mas é sério. — falei assim que ele parou. — Eu estou com medo.
  • — Medo do que?
  • — Sei lá, é tanta responsabilidade... Tenho medo que alguma coisa dê errado e eu acabe ficando sozinha.
  • — Para com isso. É uma baita responsabilidade sim, mas a gente vai assumir ela juntos. E nada vai dar errado. Eu vou estar do seu lado em todos os momentos, agora mais do que nunca. Não vou te abandonar por nada nesse mundo, entendeu?
  • — Entendi. Mas se antes era difícil de te aturar imagina agora que você não vai me largar mais. — brinquei.
  • — Agora tu imagina a minha situação que vou ter que te aguentar ainda mais chorona, mais estressada e mais dramática. — ele riu.
  • — Que mentira! — exclamei sorrindo. — Mas tem uma outra coisa que me preocupa.
  • — O quê?
  • — Meu pai.
  • — Putz, ele nunca foi com a minha cara.
  • — Aham. O que minha mãe tem a favor de você, ele tem contra.
  • — Ele vai querer me matar quando descobrir.
  • — Não sei se ele vai querer ver meu filho sem pai. — argumentei, arrancando mais um sorriso dele.
  • — É. Olhando por esse lado talvez ele me deixe viver.
  • — Depois eu quem sou a dramática da história. — revirei os olhos, achando graça do jeito dele.
  • — A gente precisa resolver isso logo.
  • — Eu sei, mas acho melhor fazer o exame de sangue antes para garantir.
  • — Tudo bem. Vamos marcar uma consulta para o quanto antes e de preferência em um dia que eu possa ir junto contigo.
  • E foi isso que nós fizemos. Depois de confirmar a gravidez, marcamos um dia para contar a novidade aos meus pais. Eu estava nervosa, minhas mãos suavam e mal consiga manter minha respiração constante. Quando a campainha tocou, meu coração ameaçou sair pela boca. Corri para abrir a porta e assim que vi aquele sorriso tão familiar, senti uma onda de alivio me invadir.
  • — Vai dar tudo certo, morena. — ele sussurrou em meu ouvido enquanto me abraçava.
  • Seguimos de mãos entrelaçadas até a sala, onde meus pais estavam nos esperando. Sentemos um ao lado do outro e ele segurou ainda mais firme minha mão, passando-me confiança.
  • — Então? O que foi que vocês fizeram? — meu pai perguntou.
  • — Um filho. — murmurei, com receio.
  • — Você está grávida? — minha mãe questionou sem esconder a surpresa.
  • — Sim. — respondi com um suspiro.
  • — Sabe que até demorou demais para isso acontecer. — meu pai disse, sem demonstrar qualquer espanto.
  • — Pai! — o repreendi de olhos arregalados.
  • — Eu sempre respeitei muito a sua filha. — enfim, ele se pronunciou. — Ela sempre foi a pessoa que mais me apoiou desde que a gente se conheceu. Eu gosto demais dela e a gente vai criar esse filho juntos.
  • — Eu fico feliz em saber que você assume as consequências dos seus atos. Eu não esperava. — meu pai comentou.
  • Confesso que fiquei encantada com a forma protetora que aquele par de olhos negros recaiam sobre mim durante a conversa com meus pais. Ele sempre se sobressaia em relação aos outros homens, porque além de beleza, ele possuía caráter. E eu sabia que a vida havia sido generosa comigo por permitir que eu convivesse com alguém tão especial como ele.
  • — Eu não disse que ia dar tudo certo? — ele indagou assim que ficamos sozinhos na sala.
  • — Estou me sentindo muito mais aliviada agora. — confessei. — Obrigada por ter vindo falar com eles.
  • — Não precisa agradecer. Era o mínimo que eu podia fazer, afinal você está fazendo de mim o cara mais completo do mundo.
  • — Estou? — perguntei impressionada.
  • — Está. — confirmou sorrindo. — Você sabe que eu sempre fui louco para ter um filho. E saber que ele vai ter uma mãe tão perfeita como você, me deixa ainda mais feliz.
  • — Você não existe, moreno. — falei agarrando-o pelo pescoço e o abraçando. Foi só naquele momento que eu pude notar o quanto eu gostava do perfume dele.
  • E foi a partir dali, que comecei a observar que sempre quando estávamos juntos, ele dava um jeito de deixar pelo menos uma das mãos sobre minha barriga, como se estivesse cuidando e protegendo nosso filho.
  • Até que o dia da primeira ultrassom chegou. Como ele tinha um compromisso antes, combinamos de nos esperar na clínica. Os minutos iam se passando e nada dele chegar. Eu já estava me convencendo de que ele não viria mais, principalmente quando ouvi minha médica chamar meu nome. Levantei e comecei andar em direção a sala quando ouvir o som de uma porta se abrindo. Me virei, e vi ele.
  • — Espera que eu preciso entrar junto. — disse apoiando as mãos no joelho, para recuperar o fôlego. — abri um sorriso largo e fui até ele para abraçá-lo. Naquele dia, tive certeza de que ele nunca iria me abandonar.
  • — Vocês formam um belo casal. — minha médica comentou assim que entramos na sala. — Tenho certeza que esse bebê será muito amado.
  • — Também tenho. — ele concordou segurando firme minha mão e abrindo um belo sorriso para mim.
  • Tudo estava dando certo, até eu descobrir que minha gravidez era de risco. Não consegui evitar que o medo me invadisse, mas tentei ao máximo que pude escondê-lo.
  • — Acho que todo mundo pensa que somos um casal. — falei assim que saímos da clínica, ainda de mãos entrelaçadas.
  • — É bom que achem mesmo. Ou você pensa que eu vou deixar a mãe do meu filho ficar de enrosco com outro homem?
  • — Ah é? Então você esteja ciente que eu também não vou deixar o pai do meu filho ficar de enrosco com outra mulher, ok?
  • — Ok! — ele riu, deixando o ar mais descontraído.
  • — Você ouviu o que a médica disse? — questionei depois de alguns segundos de silêncio.
  • — Sim. — sussurrou, como se não quisesse acreditar. — Mas eu vou cuidar de você, morena. Nosso filho vai nascer saudável e a gente vai ser muito feliz com ele.
  • Eu realmente acreditava que nós seriamos, principalmente depois dos quatro primeiros meses de gravidez terem passado. Até que um dia senti fortes contrações e entrei em desespero. Eu sabia que ele devia estar trabalhando e por isso chamei meu pai. Corremos para o hospital, mas já era tarde demais. Eu havia perdido meu bebê.
  • Já havia anoitecido. Eu estava em choque. Deitada na cama do hospital, eu já não possuía forças nem para chorar. Eu sabia que a qualquer momento meu moreno ia chegar, e eu não sabia se teria coragem para encará-lo.
  • Finalmente, ele apareceu. Sentei na cama e vi aqueles olhos encontrarem os meus. As lágrimas voltaram a cair e ele correu até mim, me abraçando.
  • — Desculpa. — gaguejei depois de incontáveis minutos. — Eu perdi nosso filho.
  • — Ei, não precisa se desculpar. A culpa não foi sua. — disse apertando-me em seus braços.
  • — Eu estraguei tudo. Acabei com sua felicidade. — solucei.
  • — Para com isso. Eu já disse que você não tem culpa de nada. Eu estava muito feliz mesmo por que ia ter um filho contigo, mas ainda não era a hora. Infelizmente a gente não pode ter tudo o quer. Mas eu ainda tenho você. E isso me basta. Sem contar que somos novos, e teremos tempo suficiente para tentar ter um filho.
  • — Então você não vai se afastar de mim?
  • — Claro que não. Eu prometi que estaria sempre contigo. Só não entendo porque todo esse medo de que eu me afaste.
  • — Porque se eu perder você, perco tudo. Você é o que eu tenho de melhor. Eu preciso de você. — sussurrei em meio ao choro.
  • — Eu sempre vou estar aqui! — afirmou, convicto.
  • Ele passou a noite comigo no hospital. E apesar de não demonstrar, eu podia sentir o quão abatido ele estava. Meu coração se desmanchou aos poucos tanto pela perda, como por estar fazendo ele sofrer. Ele vinha cuidando de mim, e eu tinha certeza que naquele momento era eu quem precisava cuidar dele. Nós estávamos juntos naquele barco e nenhum de nós estava disposto a abandoná-lo.
  • — Você vai poder ir para casa hoje. — ele falou assim que eu acordei no dia seguinte.
  • — Ainda bem. Não quero mais ficar aqui.
  • — E eu já falei com teus pais. Você vai ficar na minha casa.
  • — Claro que não.
  • — Claro que sim.
  • — Você precisa trabalhar. — argumentei.
  • — Minhas férias começam hoje.
  • — Então é justamente por isso que eu vou para a minha casa.
  • — Sem teimosias. Já está decidido, morena.
  • Então, mesmo depois de teimar mais um pouco, acabei cedendo e indo para a casa dele. Ele queria cuidar de mim, e eu não tinha dúvidas que queria ficar ao lado dele naquele momento. Passamos o dia juntos. Ele tentando me animar, e eu tentando forçar o riso, para não magoá-lo ainda mais. A noite chegou e eu precisei de um calmante para dormir. No entanto, despertei no meio da madrugada e notei que ele não estava ao meu lado na cama. Me levantei, e fui atrás dele. O encontrei sentado no sofá, segurando a cabeça entre as mãos e chorando. Naquele instante, deixei toda minha dor de lado para tentar amenizar a dele.
  • — Vai ficar tudo bem. — sussurrei enquanto me aconchegava no colo dele.
  • — Eu quebrei minha promessa. Falei que nosso filho ia nascer saudável e que nós seriamos felizes.
  • — Moreno, você não quebrou promessa alguma. Foi a vida que decidiu mudar o desfecho da nossa história. Você não pode pensar assim. Ninguém tem culpa do que aconteceu. — tentei convencê-lo.
  • — Eu sinto muito. — ele murmurou triste.
  • — Eu também.
  • E sabendo que nenhuma outra palavra adiantaria, acabei encostando meus lábios nos dele, beijando-o com todo o carinho que eu conseguia fornecer. Pude sentir um fantasma de um sorriso se formar em sua expressão e me afastei calmamente.
  • — Agora vem que você precisa descansar. — ele se levantou, me pegou no colo e me levou novamente para o quarto.
  • Assim a semana se passou. Não medi esforços para arrancar sorrisos dele e ele fez o mesmo. Volte e meia eu me pegava pensando no beijo daquela noite, mas tentava ao máximo não pensar naquilo. Ele era apenas meu amigo — ou pelo menos eu pensava que era.
  • — Acho que vou me aventurar a atravessar a rua e voltar para a minha casa. — comentei. Era domingo cedo e nós nem tínhamos levantado da cama.
  • — Posso saber por quê? — indagou ele, afagando meus cabelos.
  • — Porque você deveria estar agora em Dubai, e não perdendo seu tempo comigo.
  • — Quem disse que estou perdendo meu tempo com você? — perguntou de sobrancelhas erguidas.
  • — Eu estou dizendo.
  • — Então eu estou dizendo, que eu realmente poderia estar agora em um hotel em Dubai, mas eu prefiro estar aqui te perturbando. E ouvindo essa sua voz de sono em pleno domingo de manhã.
  • — Moreno, você está me saindo melhor do que a encomenda. — dei um sorriso bobo.
  • — Falando nisso. Você lembra quando começou me chamar de moreno?
  • — Lembro sim. Eu tinha acabado de quebrar a cara com um idiota. — fiz uma careta, recordando-me daquele dia.
  • — Tu disse que um dia ainda ia encontrar um cara safa que ia ser só teu e te chamar de morena.
  • — E você disse que enquanto eu não achasse, tu ia me chamar de morena, porque safado tu já era de monte, né? — falei rindo.
  • — Boba. — ele sorriu, mas logo voltou a ficar sério. — Morena, eu estou apaixonado.
  • Fiquei paralisada frente a revelação dele. Surpreendendo a mim mesma, senti o pavor tomar conta do meu corpo. Aquilo não podia estar acontecendo. Eu não podia perdê-lo. Pelo menos não agora, porque eu não estava preparada para isso.
  • — Apaixonado? — balbuciei me levantando da cama.
  • — Sim. — confirmou e eu comecei andar desesperadamente de um lado para outro.
  • — Você deveria ter me contado antes. — falei apressadamente, observando ele se levantar também. — Eu beijei você outro dia! — exclamei, no momento em que ele me abraçou por trás. Notei então que eu gostava de sentir aquele corpo próximo ao meu. Gostava do calor que emanava. Do cheiro. Gostava de quem eu me tornava ao lado dele. E estava cada vez mais difícil para eu esconder que estava apaixonada.
  • — Depois você ainda tem a capacidade de dizer que não é dramática. — ele sussurrou em meu ouvido.
  • — Não é drama. — afirmei virando-me para ele e encontrando um olhar extremamente quente, que acendeu meu corpo para algo que eu já não conseguia mais evitar. — Mas isso está errado.
  • — Da última vez que nós fizemos algo que você achava errado, acabamos nos aproximando ainda mais.
  • — Mas agora é diferente. — murmurei. — E eu só tenho uma coisa para dizer. Ai dessa mulher que você está apaixonado se ela não cuidar direitinho de você e não te fazer feliz.
  • — Você já cuida direitinho de mim, morena. E me faz feliz como ninguém. — ele sorriu.
  • — Espera aí. Você está me dizendo que... — e em resposta de uma pergunta que eu ainda não havia feito, senti os lábios dele tocarem com delicadeza os meus.
  • — Eu estou tentando dizer... — começou ele quando nossas bocas se separaram. — Que eu só conhecia o seu lado forte, decidido... Mas nesses últimos meses eu me deparei com uma mulher totalmente diferente. Cheia de inseguranças e que tem medo de ficar sozinha. Logo você, morena. Que poderia ter qualquer cara que fosse aos teus pés. Então eu comecei a perceber que eu queria cuidar de você. Que eu não seria capaz de te deixar nunca, porque o que eu sentia por ti era muito mais forte do que amizade. Eu estou perdidamente apaixonado por você, morena. — confessou secando as lágrimas que se acumulavam em meus olhos.
  • — Que bom. Porque eu também estou perdidamente apaixonada por você, moreno. — ele abriu um daqueles sorrisos de tirar o fôlego e me beijou novamente.
  • E eu não podia mais negar que ele havia plantado uma pequena semente em meu coração. E com o decorrer do tempo, foi cultivando-a, a ponto dessa modesta semente crescer e se enraizar em meu peito, para sempre.
  • Inspirado na música: Domingo de Manhã - Marcos E Belutti

Ficou comprovado que 95% das cosquinhas terminam em beijo. Eu faço parte dos 5% que terminam dando murro, e mandando ir se fuder.